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Pará/Brasil

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Da Redivisão do Estado do Pará (Parte I)

O Blog, a partir de hoje, vai iniciar uma série de postagens referentes à redivisão do nosso amado Estado do Pará, externando suas opiniões e fazendo as ponderações que achar necessárias.
Antes de qualquer coisa, o autor do texto é paraense, nascido e criado na capital, a linda Belém do Pará, terra das mangueiras, do tacacá das 15h, da terra do açaí (antes ou depois do almoço), do fantástico Círio de Nazaré, da deliciosa maniçoba, do Museu Emílio Goeldi, do Bosque Rodrigues Alves, do tão falado Ver-o-Peso, do Forte do Castelo, do lindo Teatro da Paz, da histórica Basílica de Nazaré, das Estações das Docas......
Pois bem, por acreditar que já se conseguiu demonstrar de qual cidade está se falando, voltemos ao ponto principal da postagem, a redivisão do Pará.
Até janeiro de 2010, quando sai de Belém, recordo-me que o assunto “(re) divisão do estado” era algo tão distante dos belenenses que o assunto era de pouco destaque nas rodadas de amigos. Não tínhamos, nós belenenses, noção de que se tratava do principal assunto das regiões conhecidas como Carajás e Tapajós.
Lembro-me que, ainda acadêmico, alunos do curso de Jornalismo da Unama BR promoveram um belo evento no auditório principal da Universidade tendo como tema: a (re)divisão do Pará.
Dois grupos se formaram: de um lado da mesa de trabalho, os defensores da divisão, de outro lado, os contra a divisão. Como não poderia deixar de ser, cada um dos lados mostrou os dados que lhes eram mais convenientes.
O evento despertou a curiosidade de acadêmicos de vários cursos, o que fez lotar as dependências do auditório. Durante os debates, por óbvio, todos os presentes comportaram-se muito bem, mas foi no final do debate, quando abriram as perguntas aos discentes, que algo diferente ocorreu, como se fosse algo ensaiado.
Um determinado aluno presente no evento, perguntou a cada um dos debatedores favoráveis a divisão do Pará em qual estado brasileiro eles haviam nascido....eis que cada um deles respondeu: Minas Gerais, Acre e Amazonas.
O “aaaaaahhhh”..... de “indignação” ecoou no auditório como um coral bem treinado. Era o desfeche perfeito para o grupo contrário a divisão.
Nos primeiros dias de 2010, o Autor veio de mudança para o sul do Pará, mais precisamente para Redenção. Porém, devido os trabalhos, tive e tenho a oportunidade de viajar todos os 39 municípios que compõem o tão sonhado estado do Carajás e passei a ver de perto o anseio dos habitantes de cada cidade.
Em Belém, fui criado na periferia, no bairro da Marambaia, quem conhece sabe bem como era a realidade há alguns anos, antes da macrodrenagem. A realidade era cruel, bastava dar a previsão do tempo no noticiário para inundar a rua de casa.
Vendo de perto as mazelas do chamado “Carajás” lembrei-me, imediatamente, das mazelas existentes em Belém, principalmente, na sub-Belém. Sempre falei aos mais próximos que existe uma Belém dentro da Belém. É a sub-Belém, é o submundo onde impera a violência, a tráfico, a prostituição infantil, onde as gangues matam para demarcar seus territórios, é onde o álcool e as drogas entram e destroem famílias inteiras sem pedir permissão, é onde o pobre que adoece precisa agarra-se com seu padroeiro e pedir ao seu Deus para sair vivo porque sabe que não encontrará médico no posto de saúde, é o local onde o pobre tem a mais profunda certeza que nasceu para sofrer, que está nesse mundo apenas para ocupar espaço e que não adianta reclamar muito, pois pode perder o pouco que ainda lhe resta...
Nesse momento, há quem possa dizer que: “então, se tanto na capital como nas cidades do interior a realidade é a mesma, por que dividir ???”
....Pois bem, o raciocínio que esse belenense possui é exatamente o seguinte: “então, se nós, da capital, não conseguimos cuidar nem mesmo daqueles que estão sob os nossos olhares, daqueles que estão dentro do alcance dos nossos braços, daqueles que se acham amparados pela manta do centro do poder, daqueles que, em tese, deveriam ter uma realidade bem menos problemática do que a atual, logo, por que NÃO redividir ???








Já vimos ambos os lados, pró e contra, apresentarem seus números, pesquisas, dados, ângulos e fórmulas. Há quem diga que alguns agentes políticos estão em busca de cargos, de novas cadeiras no jogo do poder, novas “canetas” que surgirão, que o Governo Federal terá um gasto considerável durante alguns anos, que o custo é inviável, que isso, que aquilo.
Porém, infelizmente, o que não se vê é o ator principal dessa novela ser citado nos números frios apresentados pelos dois lados. Esse ator principal é o SER HUMANO.
Somos nós, seres humanos, que precisamos de melhores condições de vida, somos nós, seres humanos, que precisamos de uma melhor educação, de mais saúde, de mais dignidade, de mais respeito.
Somos nós, seres humanos, o ator principal dessa história. As coisas positivas e negativas executadas nesse mundo recaem sobre nós mesmos. Somos o côncavo e o convexo. Somos nós, seres humanos, os dois lados da mesma moeda.
Quando vejo algum agente político da nossa capital falar que os agentes políticos do Carajás ou do Tapajós querem, realmente, é o poder, me vem à cabeça o seguinte: “será que esse agente político da capital não quer redividir justamente porque NÃO quer “dividir” o seu poder, o poder que já possui em mãos ???”
É óbvio que não quer dividir, é óbvio que é interessante que o poder do Pará continue com meia dúzia de pessoas. Enquanto isso, que se dane o povo, que se explodam as gerações de miseráveis que nascerão e viverão na miséria.
Os números apresentados pelas últimas pesquisas desfavoráveis à redivisão tentam nos convencer de que os estados do Carajás e Tapajós já nascerão com déficit. Porém, os números até agora apresentados, fazendo um paralelo com os noticiários dos últimos dias, não chegam a 1% do dinheiro que foi jogado (na verdade, bem jogado para alguns) pelo ralo da corrupção. Dinheiro público que enriqueceu meia dúzia de pessoas.


          





Aí eu pergunto, é justo falarmos de míseros reais quando o que está em jogo é o futuro de milhares de pessoas, de crianças a idosos? Mais ainda, estamos falando não só das pessoas que residem nessas regiões, atualmente, mas também de gerações futuras que, inevitavelmente, padecerão caso essa realidade permaneça do jeito que está.
Acima falamos das parecidas realidades existentes entre as cidades do interior do Estado, mais precisamente na região do Carajás, com a realidade vivida na própria capital. Porém, um detalhe importante para se destacar é a gritante diferença dos mecanismos de ajuda. Os habitantes da capital possuem, se comparando com o interior, um leque considerável de opções para suprir algumas necessidades básicas que o Estado deixa de oferecer ou oferece com a qualidade que lhe é peculiar, infelizmente.
Porém, o habitante da “cidadezinha” do interior não tem com quem e onde se socorrer quando a dificuldade mais acentuada lhe bate à porta, principalmente quando diz respeito à saúde. O Ministério Público tenta, aguerridamente, fazer sua parte da melhor maneira possível, mas sabemos que as condições de trabalho dos heróicos promotores não são das mais favoráveis.
Resta ao pobre enfermo socorrer-se com “seu político” mais próximo para conseguir chegar até Belém. Daí em diante, enfrentará mais uma luta angustiante, a busca por um leito em algum hospital público. Quando muito, consegue chegar em Belém, devido à influência de “seu político”, já cadastrado e com um leito à sua espera. Mas isso é exceção.
A velha política do “toma lá da cá” continua eficiente nessas localidades. Infelizmente, acreditar numa mudança substancial nesse sentido é praticamente impossível.
Nossa linda e amada Belém está longe de ser uma capital top de linha, longe mesmo. Costumo dizer que somos, hoje, frutos do que fizemos ontem e seremos, amanhã, consequências do que fizermos hoje. Logo, o que vivemos atualmente no Brasil é fruto de um passado desastroso, de uma herança colonial destruidora.
Porém, para o bem de poucos e infelicidade geral da nação, está-se plantando uma política cada vez mais excludente, onde a mentira é pregada com tanta veemência que se torna verdade.
É claro que a redivisão desse gigantesco Pará não trará, imediatamente, a mudança que o povo dessa região precisa, porém, é certo também que se continuar do jeito que está o progresso indubitavelmente virá à passos de formiga e sem vontade, como sempre foi.

......continua.....

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