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Pará/Brasil

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Da Redivisão do Estado do Pará (Parte II)

Muro de Berlim. Símbolo da Guerra Fria

...prosseguindo com o raciocínio sobre a redivisão do Estado do Pará, muitos paraenses, em especial os belenenses, são ludibriados a acreditar que a multiplicação do Estado fará com que um muro de Berlim, ou mesmo a muralha da China, será construído entre o Pará remanescente e os novos Estados criados, como se houvesse uma separação dos povos e das oportunidades que surgirão.
Pelo contrário, as principais oportunidades que nascerão com a redivisão do atual gigantesco Estado do Pará serão absorvidas pelos que tiverem melhores condições técnicas, fora os cargos políticos, é claro, que existem independentemente da divisão.
Atualmente, sem sombra de dúvida, o principal centro formador de mão de obra qualificada no Pará é a capital, Belém, e assim será por um longo período, mesmo com a concretização da redivisão, posto que os resultados das mudanças nos novos Estados ocorrerão paulatinamente.
Nós, belenenses, levaremos larga vantagem, no quesito qualificação profissional, sobre as oportunidades profissionais que surgirão com os novos Estados do Tapajós e Carajás. Mas na opinião do Blog essa evidente vantagem não deve ser o motivo pelo qual nós, belenenses, devemos apoiar a redivisão do nosso amado Pará.


Grande Muralha da China é uma impressionante estrutura de arquitetura militar construída durante a China Imperial

É, no mínimo, insensato acreditar que amamos o Pará porque ele é “grande”. Ora, a maioria dos paraenses nunca conheceu os municípios que escapam da área metropolitana e nordeste do Pará, logo, não conhece o sofrimento das demais comunidades.
Muito mais importante do que “amar” um estado grande, territorialmente falando, é amar os irmão que se dedicam a cuidar de parte desse gigantesco Estado, visto que, sem essa dedicação, com toda certeza, até os dias atuais, muita coisa não teria mudado e ainda estaríamos respirando ares coloniais em pleno século XXI. Certo é que muitos de nós belenenses nunca abrimos mão do “conforto” da capital para nos dedicar ao interior do nosso Pará.
A redivisão não será o vilão do Pará porque irá retirar as “minas de ouro” como querem fazer acreditar alguns defensores da perpetuação da miséria do atual Estado. Aliás, quantos belenenses possuem, sequer, um alqueire de terra nas regiões do Carajás e Tapajós? Com certeza, pouquíssimos.
Pelo que se vê, a resistência em continuar com um estado gigante em sua geografia não parece ser a coisa mais sensata, principalmente porque nós, de Belém, quando nos manifestamos contrários à redivisão, quase sempre, justificamos apenas que é pelo fato de querermos o nosso ‘amado’ Pará grande como ele é atualmente. Mas, sinceramente, o que significa para nós, belenense, essa “grandiosidade territorial do Pará”?
O lucro resultante da tão falada riqueza mineral existente nessas regiões é privilégio de pouquíssimos mortais. Para a população, ficam apenas os buracos e míseros afagos como recompensa e algumas obras beneficentes para amenizar as mazelas sociais que esses centros atraem com a constante migração.
Por sinal, na prática, quando as empresas mineradoras querem fazer a política de boa vizinhança com a administração local (prefeitura), quase sempre, “sugerem”, ao dar a sua contribuição financeira, as obras que gostariam de ver em execução. Ou seja, há um jogo de faz de contas, onde as empresas fazem de conta que ajudam e as prefeituras fazem de conta que são ajudadas.
Em verdade, o que acaba acontecendo é apenas uma transferência de responsabilidade na execução das obras, onde a prefeitura faz o serviço que beneficiará as próprias mineradoras, como o asfaltamento de ruas e a recuperação das estradas vicinais, sempre indicadas pelas próprias empresas.
Pois bem, voltando ao foco principal, o personagem mais importante em qualquer lugar desse mundo é sempre o ser humano. É pra ele, ou melhor, para nós, que precisamos voltar nossas atenções.
Quando sustentam que o Pará é lindo porque é grande, verifica-se que a desinformação impera, pois há tempos nós, paraenses, não somos donos da maioria das terras que aqui existem. É utopia, ao olhar o mapa do atual Pará, acreditar que toda essa dimensão geográfica pertence ao povo paraense. Longe disso. Meia dúzia de grandes latifundiários somado com meia dúzia de empresas que investem seu capital em terras são os verdadeiros donos dessa grande área territorial.
Redividir o Pará, com certeza, não mudará a realidade das regiões emancipacionistas do dia para noite, como num passe de mágica, porém, certo é que do jeito que está atualmente gerações e gerações padecerão com a inevitável ausência do poder público.
Em tempos de plebiscito, o discurso pela “melhor redistribuição dos recursos financeiros” é externado com muita facilidade, o grande problema é vê-lo se transformar em realidade. Por mais que se tente demonstrar o aumento de investimentos nas regiões em destaque, através de números frios postos por quem tem interesse, na prática, o que se vê são regiões muito distantes de iniciar o seu desenvolvimento, salvo raras exceções.
Nos últimos anos, fora a lacuna administrativa do Governo da ex-governadora Ana Júlia, o Estado conseguiu dar contribuições significativas em boa parte do Pará, com ênfase para os principais centros. O Governador Simão Jatene obteve do povo o reconhecimento do seu trabalho no primeiro mandato e o fez retornar ao cargo de chefe do Poder Executivo Estadual. Porém, embora se reconheça o esforço e competência do Governador e sua equipe, os desafios encontrados por aqui são humanamente impossíveis de serem contornados à tamanha distância como acontece nos dias atuais.
Belém, como centro do poder que é, possui, por si só, um gigantesco leque de mazelas que os Poderes Públicos Municipal, Estadual e Federal ainda não deram conta de resolver, logo, pergunta-se, se nem a capital que é o próprio centro do poder, que possui os maiores investimentos externos, que possui a maior receita do Estado, não consegue eliminar suas deficiências básicas quais expectativas os povos das regiões emancipacionistas podem ter de que agora o Estado conseguirá resolver os seus problemas mais elementares???
Infelizmente, o interior do Estado continuará sendo por muitos e muitos anos um “celeiro de problemas” para o Governo Estadual justamente pela falta de investimentos. Falo de investimento e não sobras financeiras. O prefeito de Belém, quando perguntado sobre a inoperância da rede de saúde pública municipal, já possui um discurso ensaiado ao dizer que o problema vem do interior, pois tudo deságua nos hospitais municipais de Belém.
Divergências à parte, o seu discurso, mesmo ensaiado e repetitivo, faz sentido sim. No extremo sul do Pará, quando alguém adoece gravemente e o hospital regional não pode atendê-lo, a primeira iniciativa a ser tomada é levar para Belém ou para cidades dos Estados vizinhos que possuem melhor infra-estrutura, sendo os Estados de Goiás, Mato Grosso e Tocantins os que mais atendem os enfermos dessa região do Pará.
O custa da viagem do sul do Pará até Belém é altíssimo. O doente precisa, ainda, demonstrar uma resistência fora do normal para encarar a distância e os buracos na estrada até Belém, mesmo na parte federalizada que liga Redenção à Marabá (BR 155), sendo o restante do percurso consequência do abandono da administração estadual passada que ainda reflete sobre a região.
Trazer o centro do poder para mais perto da população local é fundamental, inclusive, para que se cobrar mais e melhor. Sentir a realidade é elementar para que se possam encontrar as soluções mais adequadas para cada situação. Medidas paliativas e à longa distância não resolvem os problemas crônicos das regiões.
Os exemplos citados acima são apenas algumas das inúmeras deficiências encontradas nas regiões sul e sudeste do Pará. Fazer esse debate chegar até a capital já vai fazer valer a pena o plebiscito de dezembro.
Por essas e outras é que o Blog vota SIM.

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